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CRISTÃO VOLTA ATRÁS?



Por Maurício Zágari

Sim, cristão volta atrás. Eu diria mais: se não volta atrás, não é cristão, pois nossa fé pressupõe que vivamos constantemente examinando a nós mesmos, reconstruindo quem somos, refazendo nossas crenças, reavaliando nossas práticas, abandonando pecados, renovando nossa mente. Ser cristão pressupõe uma mutação constante e por uma razão básica: nossa meta enquanto estamos neste mundo é nos conformar à imagem de Cristo. Bem, eu ainda estou bem longe de ter uma imagem perfeita do puro e santo Cristo em mim, portanto preciso continuar me transformando e me deixando transformar pelo Espírito Santo, para que termine a carreira sabendo que o bom combate foi combatido da forma mais parecida possível com a que Jesus combateria. Ou seja: se o Mestre foi amoroso, devo viver estendendo graça; se o Cordeiro foi abnegado, preciso caminhar em humildade; se o Rei amou o próximo, devo ajudar meu semelhante; se o Todo-poderoso perdoou, quem sou eu para não fazer o mesmo? E por aí vai. Então, sim, preciso mudar a cada dia, numa tentativa de ser transformado ao máximo possível em quem Deus quer que eu seja.

Um dos lemas dos reformadores, aliás, é “Igreja reformada, sempre se reformando” (Ecclesia reformata, semper reformanda). Vemos, então, que tanto nos escritos paulinos (Rm 12.2) quanto nos pressupostos da Reforma Protestante, as mudanças de curso são uma constante. Com isso, jamais devemos ver o reexame de antigas crenças e práticas como um erro, mas sim como uma possibilidade desejável (desde que, claro, a mudança seja para melhor). A querida irmã Elis Amâncio postou há alguns dias no facebook uma frase atribuída a Juscelino Kubitschek em que ele diz: “Costumo voltar atrás, sim. Não tenho compromisso com o erro”. Gostei disso e essa afirmação casou com uma decisão que tive de tomar recentemente.

Não é segredo para quem me acompanha pelo APENAS que sou um crítico do mau uso das redes sociais, já expressei isso claramente aqui no blog. E falo por experiência, pois eu mesmo já errei muito no uso dessas ferramentas, a ponto de prejudicar a mim e outras pessoas. Aprendi a lição. Pois bem: há algumas semanas fui convidado para pregar no congresso de uma igreja e o tema de minha ministração foi Os perigos da internet. No processo de preparação dessa mensagem, refleti muito sobre o assunto, conversei com muitas pessoas e preciso reconhecer que tive de reavaliar algumas posições quanto ao uso de ferramentas como o facebook, por exemplo, contra as quais estive refratário por muito tempo. Em alguns pontos, quero deixar claro que mantenho as mesmas ideias de antes: continuo não gostando de quando o contato virtual substitui o pessoal; sigo achando triste dar parabéns por, por exemplo, um aniversário “curtindo” um post em vez de telefonar para o aniversariante ou visitá-lo; preservo minha convicção de que a exposição da vida privada pela web é um enorme problema; continuo vendo muita gente se manifestando com agressividade e ódio pelo ambiente virtual (as reações às últimas eleições que o digam); e, acima de tudo, ainda considero que as redes sociais abrigam uma quantidade gigantesca de conteúdo irrelevante e, até mesmo, nocivo, que toma demais o tempo de quem não as usa com critério e não produz nenhum tipo de benefício. Em resumo: sim, ainda acredito que o mau uso da internet pode causar enormes problemas.

Dito isso, preciso dar a mão à palmatória, pois, após muito refletir e me aconselhar, reconheço que há formas positivas de usar as redes sociais, desde que de forma refletida, cautelosa e comedida. Eu já vinha ponderando sobre isso há algum tempo e conversando com pessoas equilibradas que fazem um uso bastante saudável de suas mídias sociais. Comecei, então, a observar as redes sociais com um olhar mais atento. A gota d’água foi quando, no início de outubro, com o lançamento do meu livro “Perdão Total – Um livro para quem não se perdoa e para quem não consegue perdoar“, conversando com profissionais da editora Mundo Cristão, fui convencido a criar uma página no facebook que permitisse transmitir informações sobre a obra e sobre minha atuação como escritor. Confesso que, ainda um pouco ressabiado, concordei e a criei, mas mediante a condição que me autoimpus de que fosse um espaço de fato em que eu pudesse edificar vidas e não apenas “fazer divulgação”. Planejei-me para usá-la de modo que eu ficasse o menor tempo possível logado e que seu uso não atrapalhasse meu trabalho e, principalmente, o tempo com minha esposa e minha filha – pois minha família foi a maior prejudicada pelo meu mau uso da internet no passado e não quero repetir o erro. E preciso reconhecer que tem dado frutos. A conclusão de tudo isso é que, se usamos as redes sociais com equilíbrio, planejamento e priorizando o que tem de ser priorizado (como o contato humano; o consumo do que é relevante; e a dedicação de tempo e atenção à família), ela pode ser algo que soma e não que subtrai. Assim, há alguns dias pus no ar um perfil de facebook que tenho usado exclusivamente para falar como escritor e como cristão. Em outras palavras: eu voltei atrás, porém com uma enorme ressalva: desta vez consciente de que preciso usar essa rede social de modo extremamente diferente do que da primeira vez. Sem dúvida alguma o APENAS continua sendo meu espaço preferido, pois é aqui que desenvolvo pensamentos mais profundos e complexos, aos quais me dedico com mais reflexão – como prefiro. Lá o que tenho compartilhado são informações sobre o processo de escrever, projetos nos quais trabalho e, naturalmente, pensamentos e reflexões bíblicas. Será um espaço mais informativo do que reflexivo. Se você desejar, basta entrar em facebook.com/mauriciozagariescritor e “curtir” a página, para passar a acompanhar as postagens. Já está no ar.

Essa mudança me fez pensar muito sobre o processo de voltar atrás à luz da Bíblia. Minha conclusão é que, se precisamos retroceder, devemos usar a maturidade e a experiência que adquirimos para agir com mais equilíbrio e de modo mais aperfeiçoado – e, por que não dizer, mais santo. Não cometer os erros do passado. Não prejudicar ninguém. Buscar informações que nos ajudem a ser melhores naquilo. Enxerguei isso, por exemplo, na história de Moisés. Certamente, ele partiu do Egito sem a intenção de voltar, mas, quando Deus o mandou retornar para libertar seu povo, ele era um homem mais maduro, sofrido, amassado pela vida e pelos erros do passado. Foi preciso Moisés passar 40 anos cuidando de ovelhas para voltar atrás – dessa vez, como alguém diferente. Também penso em José, o filhinho de papai que dedurava os irmãos. Foi necessário que ele passasse pela escravidão e pela prisão para que estivesse habilitado a voltar atrás e, com isso, retomar o contato com seu povo e sua família e cumprir os propósitos de Deus. Também Pedro, que, após trair Jesus, achou que voltaria a ser um pescador mas teve de voltar atrás quando Jesus o chamou para apascentar as suas ovelhas. São muitos os exemplos bíblicos de personagens que voltaram atrás. Em comum entre eles, o que vejo é que as pessoas tiveram de passar um tempo sofrido e reflexivo em atividades ou situações diferentes, amadurecendo, crescendo, se santificando, se arrependendo, se perdoando e passando por muitos outros processos para poder retornar ao que faziam antes. Comigo não foi diferente.

E na sua vida? Você teve de passar por algum período de provações, foi removido de algo, deixou alguma atividade, precisou se reavaliar e se reexaminar para, depois reassumir? Está passando por isso agora? Tem decisões a tomar? Então fique atento aos sinais de Deus. Dedique-se à oração e ao estudo das Escrituras, para que o Senhor mostre a você se, no seu caso específico, será preciso voltar atrás ou prosseguir sem jamais retroceder. Esteja aberto à voz de Cristo, pois as ovelhas conhecem a voz do bom pastor – e a doce e suave voz do Cordeiro te guiará. E, sempre, que a glória da segunda casa seja maior do que a da primeira, para que, naquilo em que você precisa se reavaliar, o caminho te conduza mais para perto de Jesus, em santidade, propósito e missão. Se voltar atrás vai te afastar de Cristo ou dos planos dele para a sua vida, meu irmão, minha irmã, o melhor é continuar onde você está ou seguir um rumo diferente. Mas, se vai edificar a Igreja e abençoar o corpo de Cristo, faça o que Deus manda, saia da zona de conforto carregando consigo todo o amadurecimento na bagagem e volte ao início. E que o Senhor te abençoe.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,

Maurício Zágari.


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