Linchamento em uma sociedade entregue às paixões

Linchamento em uma sociedade entregue às paixões
Era apenas um boato, como tantos que ouvimos. Quando eu era criança surgiu o rumor de que um pervertido sexual estava cortando nádegas de mulheres com uma navalha. Ele se aproximava sorrateiramente por trás e atacava. Ninguém conhecia uma única vítima, mas o ‘disse me disse’ se espalhou e as meninas do meu bairro passaram a andar com mochilas penduradas às costas para evitar o ataque. À medida que o tempo passou zunzum foi perdendo força e a vida voltou ao normal. Mais recentemente surgiu outra falação: uma mulher em um veículo tipo Kombi sequestrava crianças à porta dos colégios no subúrbio, de novo nenhuma vítima de tal descalabro foi encontrada e, como de costume, perdeu força.
Falo estas coisas porque sei que boatos de crimes imaginários surgem, volta e meia, especialmente nas camadas mais carentes da população. Normalmente aparecem do nada, causam alvoroço e somem. No bairro de Morrinhos no Guarujá surgiu o boato de que uma mulher sequestrava crianças para rituais de magia negra, mais uma vez não havia nenhuma vítima conhecida da tal bruxa. Este boato não deveria ser diferente, deveria seguir o mesmo roteiro: depois de causar comoção por um tempo, seria esquecido. Não era para ser diferente, mas desta vez foi.
Foi diferente porque uma dona de casa, Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, segundo alguns parecida com um retrato falado publicado em um site, foi confundida com a suposta criminosa e, ao invés de entregá-la às autoridades, a população resolveu fazer justiça com as próprias mãos. Na fúria demoníaca que tomou conta da população, a Bíblia que Fabiane carregava, com fotos de suas filhas, foi vista como um livro satânico. As imagens do linchamento ganharam o mundo: xingamentos, tapas, murros, pontapés, pedradas, pauladas, se multiplicaram.
Acredita-se que cerca de cem pessoas participaram diretamente da carnificina e mais de mil a testemunharam. Poucos foram os que tentaram fazer alguma coisa para impedir. Testemunhas informaram que pessoas divulgaram, via redes sociais, a captura da bruxa que aterrorizava a região e vieram pessoas de longe, até de moto, para assistir e se deliciar com a barbárie. A tortura durou cerca de duas horas. Ao final, tentaram queimá-la viva, mas a polícia impediu este último intento. Levaram o corpo desfigurado de Fabiane ao hospital, mas já era tarde. Menos de vinte e quatro horas depois ela encontrou a morte. Fabiane deixou as duas filhas, das quais ela guardava as preciosas fotos dentro da sua Bíblia, órfãs. Uma se chama Yasmin, tem doze anos, a outra é Esther, a princesinha de apenas um ano.
Fazer justiça com as próprias mãos tem se tornado cada vez mais comum neste país. Há pouco tempo um rapaz foi espancado e preso num poste no centro do Rio de Janeiro; outro morreu após linchamento na cidade de Joinville ao ser acusado de estuprar uma criança, o linchamento ocorreu mesmo após a mãe da suposta vitima informar que o rapaz era inocente; dias depois do linchamento de Fabiane, um homem quase foi morto por populares ao ter sido confundido com o irmão que estava sendo procurado por agredir a esposa. Os casos se repetem ‘ad nauseam’.
A ausência do poder público, a certeza de que os delinquentes ficarão impunes, o medo da criminalidade crescente, tem feito com que pessoas sintam-se cada vez mais iradas com o estado de coisas que vivemos. De outro lado as autoridades, cada vez mais preocupadas com os seus projetos de poder e enriquecimento ilícito não estão nem um pouco preocupadas com a sanha justiceira homicida que varre o país de norte a sul.
Como homem de fé, não posso deixar de notar que também há muito de perversão espiritual nestes crimes. A própria confusão em não discernir a diferença entre uma Bíblia e um livro satânico ilustra bem o que penso. As pessoas estão cada vez mais cegas. A sociedade que jaz no Maligno, escravizada por ele em suas paixões está cada vez mais se afundando nesta escravidão. As pessoas simplesmente não conseguem se impor limites e isto vale para todas as áreas da vida, seja na violência, na ganância, nas drogas, na gula, na soberba, na sexualidade, na ira, na vaidade…
Todas as paixões são exacerbadas, todas estão sendo levadas ao mais alto grau de intensidade, mesmo no nosso dia a dia. Somos sistematicamente bombardeados com sugestões de não adiar a satisfação dos nossos desejos. Nesta insana busca de refutar tudo aquilo que nos impõe limites, desrespeitamos os pais, os professores, as leis e até mesmo a Deus. A busca pela felicidade se tornou a senha para a busca de satisfação dos mais animalescos desejos, seja o de beber até cair, de extrapolar todos os limites da sexualidade, trair o cônjuge, trapacear o concorrente, praticar bullying contra o colega menos afortunado, dar vazão aos preconceitos, ou trucidar a dona de casa que pensa ser bruxa.
O linchamento de Fabiane e tantos outros crimes e condutas desenfreadas é a face mais monstruosa e chocante de um monstro muito maior que tem sido acalentado e alimentado diariamente no estilo de vida que permeia este século e tem dominado este mundo cada vez mais tenebroso: O monstro da escravidão às próprias paixões.
A única notícia boa nisto tudo é que já estamos vivendo os dias difíceis profetizados por Paulo na sua segunda carta a Timóteo. Portanto, estamos nos Últimos Dias e a vinda do nosso Senhor não tarda, pelo que clamamos: Maranata!
“Lembre disto: nos Últimos Dias haverá tempos difíceis. Pois muitos serão egoístas, avarentos, orgulhosos, vaidosos, xingadores, ingratos, desobedientes aos seus pais e desrespeitosos com a fé. Não terão amor pelos outros e serão duros, caluniadores, incapazes de se controlarem, violentos e inimigos do bem. Serão traidores, atrevidos e cheios de orgulho. Amarão mais os prazeres do que a Deus” (2 Timóteo 3:1-4)
Fonte Gospel Prime