Zacarias - O Reinado Messiânico - Lição 12


AS OITO VISÕES DE ZACARIAS – BREVE ANÁLISE
Luciano R. Peterlevitz

Resumo
As oito visões narradas em Zacarias 1-6 têm como mediação hermenêutica o Império Persa. O
texto zacariano vale-se de relatos visionários  que dialogam com  o  dito profético,
prenunciando assim o gênero apocalíptico. Tais visões encenam a chegada de um novo tempo
que se iniciaria com a reconstrução da cidade de Jerusalém e do templo. Mas tal esperança só
é possível mediante a queda do imperialismo persa. Evidencia-se, portanto, que a escatologia
de Zacarias afirma uma intervenção de Deus contra o imperialismo opressor vigente no pósexílio.

Vários comentaristas classificam  o texto de  Zacarias  como apocalíptico.  Mas  as
pesquisas recentes tem demonstrado que  o livro de Daniel é o único texto apocalíptico do
Antigo Testamento. Evidenciarei neste estudo que o texto de Zacarias, pelo menos em suas
visões narradas nos capítulos 1-6, se aproxima do gênero dos demais livros proféticos. Pois os
relatos visionários de Zacarias são permeados  por  ditos proféticos,  bem característicos na
literatura profética, e ausentam-se na literatura apocalíptica de Daniel.
Evitarei uma leitura futurista do texto, que menospreze a possibilidade de lermos as
visões tendo como referencial hermenêutico o império persa. Demonstrarei a expectativa do
profeta por um cumprimento imediato das promessas sugeridas pelas visões. Pela leitura das
visões de Zacarias perceberemos que o escathon não era a esperança pela interrupção de Deus
na história num futuro  longínquo, mas sim a possibilidade da ação de Deus a partir da
situação vivencial na qual o profeta estava inserido. Por isso, a esperança messiânica em Zc 1-
6 está intrinsecamente relacionada à situação histórica do pós-exílio.

O contexto das visões
As oito visões de Zacarias são muito bem datadas, em 1.7: “vinte e quatro dias do
décimo primeiro mês, o mês de sebate, no segundo ano de Dario”. Trata-se de meados de
fevereiro de 519 a.C. Algumas décadas antes, em 539 a.C., o rei dos medo-persas, Ciro,
assenhorou-se da Babilônia. Os persas eram, a partir de então, os novos donos do mundo
antigo. O filho de Ciro, Cambises, ampliou o Império Persa, em 525 a.C., quando anexou o
Egito à Pérsia. Assim, todo o Antigo Oriente Médio estava submetido à soberania de um
grande rei.
Neste cenário, Judá passou a ser somente mais um dos pequenos Estados anexados ao
grande Império Persa.
Os persas instituíram uma forma de governo diferente daquela dos seus antecessores
(Assíria e Babilônia). Ciro instalou uma nova maneira de governar, caracterizada pela
arrecadação de tributos e pela autonomia das regiões dominadas. Por isso ele permitiu a volta
dos judeus exilados para Judá e a reconstrução do Templo de Jerusalém. 3
Mas essa tolerância religiosa  do Império Persa  para com os povos dominados era
apenas uma camuflagem de sua opressão.
1
“Ao patrocinar o culto local, esperava conseguir
algum consenso, pelo menos dos sacerdotes, para a sua administração.”
2
Dessa forma, o
império poderia ser administrado de maneira melhor e mais duradoura. Havia um poder
central que administrava o sistema de tributos recolhidos mediante os sátrapas instalados em
cada região do Império Persa. “Ações autônomas das partes que formavam o império não
eram permitidas e, onde aparecessem, eram duramente reprimidas.”
3
Quando Cambises morreu sem deixar filhos, eclodiu-se uma crise no Império Persa.
“Seguiram-se dois anos (522-521) de lutas internas pela sucessão. Digladiaram-se diversos
pretendentes. O Império tendia ao esfacelamento. Impôs-se Dario I (522-486) que organizou e
consolidou a dominação persa.”
4
Será que as visões de Zacarias respirariam ainda o ar das desavenças que se instalaram
em meio ao Império Persa, dois anos antes de Zacarias, encontrando nisso uma possibilidade
de revolta contra esse imperialismo?
5
Ou a consolidação do Império Persa gerou uma grande
crise no povo judaíta dominado, de modo que Zacarias visa reanimá-los? A meu ver,  essa
última pergunta deve ser respondida positivamente.
Assim, o pano de funda das oito visões de Zacarias são os pós-distúrbios principiados
depois da morte de Cambises (522 a.C.), e a recente reorganização do Império por Dario, em
520-519 a.C.
Portanto, o texto de Zacarias tem o contexto persa como mediação hermenêutica.
6
A
profecia zacariana  localiza-se  no contexto do pós-exílio. Há atualmente um grande debate
sobre esse período.
7
Entendê-lo é fundamental para compreendermos as visões de Zacarias.
                                               
1
Veja TÜNNERMANN, Rudi. As reformas de Neemias: A reconstrução de Jerusalém e reorganização de Judá
por Neemias no período persa. São Leopoldo/São Paulo: Sinodal /Paulus, 2001, p.13-30 (Teses e Dissertações;
17).
2
SOLANO ROSSI, Luiz Alexandre.  Como ler o livro de Zacarias:  O profeta da reconstrução. São Paulo:
Paulus, 2000, p.8 (Série “Como Ler a Bíblia”).
3
SOLANO ROSSI, Luiz Alexandre. Como ler o livro de Zacarias, p.9.
4
SCHWANTES, Milton. Ageu. Petrópolis/São Bernardo do Campo/São Leopoldo: Vozes/Imprensa
Metodista/Sinodal, 1986, p.10.
5
Milton Schwantes responde afirmativamente a essa questão, a partir de uma análise de Ageu. Veja
SCHWANTES, Milton. Ageu, p.12-13.
6
Portanto, vejo com reservas a opinião de Gehard von Groningen, que chama de “críticos” aqueles que pensam
que Ageu e Zacarias anunciaram um futuro de esperança para os remanescentes judaítas do pós-exílio frente ao
império persa. Veja GRONINGEN, Gerhard van.  Revelação Messiânica no Antigo Testamento: A origem
divina do conceito messiânico e o seu desdobramento progressivo. 2ª edição. São Paulo: Editora Cultura Cristã,
2003, p.829.  4
As visões - O gênero literário e as delimitações do texto
Por uma simples leitura de Zc 1- 6 nota-se que o texto é perpassado por oito visões. As
narrativas visionárias formam um tipo de literatura veterotestamentária. Há um grande debate
sobre esse gênero literário.
8
Faremos aqui algumas considerações literárias sobre as visões de
Zacarias.
A primeira visão (1.7-17) é antecipada pela fórmula profética “a palavra de Javé foi
dirigida ao profeta Zacarias” (v.7). Esta expressão é bem comum nos livros proféticos. Aqui
em Zacarias ela funciona como uma introdução geral às visões. O gênero visionário inicia-se
em 1.8, com o verbo hebraico ra’ah “ver”. É comum os relatos visionários principiarem-se
por esse verbo, sendo este seguido pela palavra vehineh “eis”, que aponta à visão.
9
A primeira visão inicia-se com o verbo ra’iti “vi”, qal perfeito de ra’ah “ver”. A
segunda e terceira visões iniciam-se de forma parecida: “Levantei os olhos e vi” (2.1,5), e o
verbo ra’ah está no qal imperfeito. Mas, na segunda visão, o mesmo verbo aparece no hifil
(2.3), “(ele) me fez ver”. Essa mesma forma verbal aparece na quarta visão (3.1). Na quinta
visão o profeta é persuadido pelo anjo a ver (4.1), e, à semelhança da primeira visão, o verbo
ra’ah aparece no qal perfeito (4.2). Por fim, a sexta, sétima e oitava visões iniciam-se de
forma parecida com a segunda e com a terceira, “levantei meus olhos e vi” (5.1; 6.1), sendo
que a sétima é também parecida, em seu início, com a quinta (5.5; cf.4.1).  
Percebe-se, portanto, que a narrativa de Zacarias é visionária. Mas, no caso do nosso
profeta, o relato visionário tem por objetivo legitimar a mensagem profética, como notaremos
nas oito visões de Zacarias. Há uma interação literária entre as visões e os ditos proféticos.
Vejamos:
A oitava visão (6.1-8)  relaciona-se à  cena relatada nos  v.9-15, e com a declaração
profética ali promulgada, pois  a temática do  v.8 é reencontrada no v.15! Ambos os versos
tratam da volta da comunidade dispersa.
A quinta visão (4.1-6a, 10b-11, 13-14) é intercalada por dois ditos (4.6b-7 + v.8-10a).
Muitos estudiosos afirmam que os ditos  proféticos nos v.6b-10a, 12 são interpolações
                                                                                                                                                       
7
Veja GRABBE, Lester L. (editor). Leading Captivity Captive. 'The Exile' as History and Ideology. Sheffield:
Sheffield Academic Press, 1998, 161p.
8
BEHRENS, Achim. Prophetische Visionsschilderungen im Alten Testament: Sprachliche Eigenarten,
Funktionen und Geschichte einer Gattung. Ugarit-Verlag, 2000, 413p. (AOAT 292). A resenha desse texto se
encontra em MCLAUGHLIN, John L. “Recensiones”. In: Bíblica – A Quarterly Review. Roma: Pontifical
Biblical Institude Rome, volume 17, fascículo 04, 2004, p.565-569.
9
LONG, Burke O. “Narrativas visionárias entre os profetas”. In: Profetismo – Coletânea de Estudos. São
Leopoldo: Sinodal, 1985, p.48-49. 5
posteriores. Entretanto,  parece-me que precisamos interpretá-los à luz do relato visionário,
pois  tais ditos  aludem  à reconstrução do templo por Zorobabel, e o templo é o espaço do
sacerdócio de Josué. Sendo assim, há um diálogo entre a função do governador davídico
(Zorobabel) e a função sacerdotal (Josué), conforme o relato visionário (4.1-6a, 10b-11, 13-
14).
Na quarta visão (3.1-10) encontramos alguns ditos proféticos, principalmente nos
v.7+v.8-9+v.10. Há  uma inter-relação entre os v.1-10. A purificação aludida no relato
visionário (v.1-6) resulta na retomada da função sacerdotal, exposta condicionalmente no v.7.
O fim do v.7 (“estar de pé”) remete-nos aos v.3-4, e também ao v.8, onde se diz que alguns
“estavam assentados” diante de Josué, dando a entender que Josué já estava de pé! A última
frase do v.8, em seu início, é bem parecida com o início da primeira frase do v.9 (“Porque
eis...”).
10
E o v.10 deve ser interpretado à luz da última frase do v.9, pois a purificação
exposta aqui resulta na tranqüilidade aludida lá.
Da mesma forma, a terceira visão (2.1-4 – Texto Massorético: 5-8) é seguida por um
oráculo (v.5) que, a meu ver, explica o sentido da visão. Pois a reconstrução de Jerusalém
aludida na visão (v.1-4) manifesta a glória de Javé (v.5)! Seguem-se os v.6-13 (Texto
Massorético: 10-17), que mantêm certa relação com os v.1-5. Essa relação evidencia-se entre
o v.5 e v.8 (a “glória”). Os v.10-12 dizem respeito à visão, pois, à semelhança do relato
visionário, esses versos tematizam Jerusalém.
Por fim, chegamos à primeira visão (v.8-11).  O v.7 é uma introdução histórica às oito
visões. A visão propriamente dita é relatada nos v.8-11. Na sequência observa-se uma série de
ditos proféticos (v.13 +v.14-16+v.17). A partir do v.12 a visão não mais é mencionada. Nesse
v.12 encontramos uma pergunta, que parece ter sido suscitada por causa da ação dos cavalos,
no v.11. Essa pergunta também suscita a resposta de Javé no v.13. O v.12, pois, marca a
virada entre a visão e os ditos. O v.13 é um resumo da resposta de Javé, que será explanada no
conjunto de ditos nos v.14-15+v.16+v.17. Esse conjunto deve ser interpretado à luz do relato
visionário. Isso porque a tranquilidade evidenciada na visão (v.11) é objeto da ira do Senhor
(v.15)! Assim, as “palavras boas, consoladoras” (v.13),relatadas nos v.13-17, surgem como
um contraponto/questionamento à visão!  
Evidenciamos,  assim,  que as visões zacarianas são permeadas  por  ditos proféticos.
Visões e ditos aglutinam-se. Tentei delimitar literariamente os relatos visionários e os ditos
                                               
10
Por isso questiono a Bíblia de Jerusalém, que separou os v.8, 9b e 10 dos v.1-7, 9a. 6
proféticos. Os relatos visionários formam um gênero literário que objetiva conferir sentido
aos ditos. Portanto, o gênero literário de Zacarias 1-6 não é o apocalíptico, ainda que tenha
algumas características  apocalípticas.
11
Pois  o texto de Zacarias  apresenta uma das grandes
características dos profetas clássicos: o dito profético.
12
Outras serão as características da
apocalíptica.
13
Então, parece-nos correto afirmar que o texto  zacariano não é ainda um
apocalipse, sendo mais bem conceituado como  parte da  gênese apocalíptica.  O  ambiente
literário zacariano situa-se no embrião da apocalíptica.
Antes de passarmos aos conteúdos teológicos das visões, preciso fazer outra
consideração. Para muitos estudiosos, Zc 1-6, originalmente, contém sete visões: 1.8-15; 2.1-
4(1.18-21); 2.5-9(2.1-5); 4.1-6a,10b-14; 5.1-4; 5.5-11 e 6.1-8.  Assim,  Zc 3.1-17 seria uma
interpolação, pois é diferente no estilo e no vocabulário, e enfatiza o papel do sumo-sacerdote
Josué, depois do desaparecimento de Zorobabel.
14
Entretanto, como mostrarei abaixo, as oito visões, inclusive a quarta (3.1-17), são
parecidas em seus conteúdos teológicos, devendo, pois, ser analisadas conjuntamente.
Passemos agora a tais conteúdos.
Conteúdos teológicos
As visões de Zacarias têm como mediação hermenêutica a época do profeta, de acordo
com 1.7. Elas respondem à crise suscitada pelo exílio babilônico (1.12). Mas, no contexto de
Zacarias, a crise não é  provocada pela Babilônia, mas pela presença do Império Persa nas
terras de Judá.
Na primeira visão (1.8-11) o profeta contempla a andança de três cavalos, que prestam
contas ao anjo do Senhor (v.8, 11). Eles percorreram toda a terra (10). A meu ver, esses
cavalos não são anjos, como interpretam alguns comentaristas. A fala do anjo, no v.12, surge
                                               
11
Veja uma discussão sobre isso em NOTH, Robert. “Da profecia à apocalíptica via Zacarias”. In: Profetismo:
Coletânea de Estudos. São Leopoldo: Sinodal, 1985, p.203-231.
12
Sobre a coleção de ditos, e para uma definição de ditos/perícopes, veja SCHWANTES, Milton. A terra não
pode suportar suas palavras:  reflexão e estudo sobre Amós. São Paulo: Paulinas, 2004, p.144-160 (Coleção
Bíblia e história).
13
Sobre a apocalíptica no AT, veja STORNIOLO, Ivo.  Como ler o livro de Daniel: Reino de Deus e
imperialismo. São Paulo: Paulus, 3ª edição, 2003, p.9-11 (Série “Como Ler a Bíblia”); DINGERMANN,
Friedrich. “O anúncio da caducidade deste mundo e dos mistérios do fim. Os inícios da apocalíptica no Antigo
Testamento”. In: SCHREINER, Josef (organizador). Palavra e Mensagem do Antigo Testamento. São Paulo:
Editora Teológica, 2
a
ed., 2004, p.419-433; BALDWIN, Joyce G. Daniel: introdução e comentário. São Paulo:
Edições Vida Nova/Mundo Cristão,  1983, p.50-64; DAVIES, Philip R. “O mundo social dos escritos
apocalípticos”.  In: CLEMENTS, R. E. (organizador.). O Mundo do Antigo Israel. São Paulo: Paulus, 1995,
p.243-263; NOTH, Robert. “Da profecia à apocalíptica via Zacarias”, p.203-231.
14
MCLAUGHLIN, John L. “Recensiones”, p.567; GORGULHO, Gilberto. Zacarias: a vinda do Messias pobre,
p.19. 7
a partir da fala dos cavalos no v.11. A terra está estabelecida e tranquila, mas Javé ainda não
teve “compaixão de Jerusalém e das cidades de Judá”. Deste modo, há um nítido contraponto
entre a fala dos cavalos no v.11 e a do anjo/homem no v.12! Por que isso?
Ora, os três cavalos  simbolizam  o Império Persa, que contava com um forte
vasculhamento de mensageiros sobre cavalos, mantenedores do sistema imperialista. Havia
uma densa rede de correios imperiais, permitindo “que as ordens o governo central chegassem
rapidamente até os confins do império. Haviam sido nomeados nas diversas províncias
governadores que exerciam o poder em nome da autoridade central e informavam
periodicamente sobre o desencadear dos acontecimentos.”
15
Assim, o v.10b parece refletir a
estrutura do Império Persa; trata-se do “envio” (xlh) dos mensageiros para percorrerem a
terra! Para esses “cavalos”, a “terra” estava “habitada e tranquila”. Tudo estava sob controle e
em ordem. Mas não é assim que vê o anjo do Senhor!
Então, como resposta ao clamor do anjo, Javé responde com “palavras boas,
consoladoras” (v.13). Os ditos nos v.13-17 tematizam a reurbanização de Jerusalém e das
cidades de Judá. Javé  está indignado contra  ha-goim ha-xa’ananim, “as nações tranquilas”
(v.15).  Estas, a meu ver, precisam ser  identificadas com a terra “estabelecida e tranquila”
(v.11), a saber, o Império Persa.
Nessa perspectiva está a segunda visão (1.18-21). O profeta vê “quatro chifres” (v.19).
O termo hebraico qeranot “chifres” no AT simboliza o poder das nações. Os chifres são “o
orgulho do touro jovem”
16
. Eles representam, pois, a força militar de um povo (1Rs 22.11; cf.
Mq 4.13). O número quatro é um símbolo de sua universalidade. Portanto, os quatro chifres
aludem a todos os inimigos do povo de Javé. Mas os ferreiros vêm para serrar os chifres! As
nações, incluindo o Império Persa, ruirão.
A terceira visão tematiza a reconstrução de Jerusalém (2.1-5 – Texto Massorético: 2.5-
9). Assim, esta visão mantém relação com os ditos que seguiram a primeira visão (1.13-17).
Mas, essa terceira visão nos alerta sobre as perspectivas da reconstrução de Jerusalém. Pois
“um homem” (v.1) almeja reconstruir a cidade com muralhas. No Antigo Oriente Médio, os
muros simbolizam a força defensiva de uma cidade. Mas outra é a perspectiva do “anjo”:
Jerusalém será   perazot teshev, “campos habitados” (v.4b). “Campos” parece ser a melhor
tradução para  perazot, palavra hebraica que se refere ao mundo camponês! Precisamos
                                               
15
BOGGIO, Giovanni. Joel, Baruc, Abdias, Ageu, Zacarias, Malaquias –  Os últimos profetas. São Paulo:
Paulus, 1995, p.74-75 (Coleção Pequeno Comentário Bíblico. Antigo Testamento).
16
BALDWIN, J. G. Ageu, Zacarias e Malaquias: introdução e comentário. Tradução de Hans Udo Fuchs. São
Paulo: Edições Vida Nova/Mundo Cristão, 1991, p.82. 8
entender que, a partir de 587 a.C., Judá foi desurbanizada. “Para a compreensão da história de
Israel e dos textos bíblicos, elaborados nesta época, é decisivo tomar em conta que de 587 até
450 Jerusalém não era uma cidade e que, a rigor, a vida urbana inexistia.”
17
O v.4b, portanto,
aludi a uma proposta: o mundo camponês habitaria no mundo citadino! A divisão entre cidade
e campo, as rixas entre esses dois setores,  eram muito  comuns no mundo do Antigo
Testamento.
18
A meu ver, o texto zacariano defende o fim dessas dissensões.
A glória do Senhor estaria no “meio” de Jerusalém (v.5), exatamente onde estavam os
“homens” e “animais” (v.4). A glória do Senhor se manifestaria quando Jerusalém não fosse
mais uma cidade caracterizada pela exploração ao campo! Por isso, os muros, que favoreciam
o processo de pauperização
19
, não poderiam ser reconstruídos.
A quarta visão (3.1-10) tematiza a purificação do sacerdócio, apesar da acusação de
Satan. Para alguns comentaristas, a acusação ao sacerdócio de Josué parece provir de grupos
sacerdotais que almejam conquistar o monopólio religioso em Jerusalém no período do pósexílio.
20
De qualquer forma, o texto alude à purificação do sacerdócio no contexto do pósexílio. Apesar de o sacerdócio ter se corrompido (Am 7.10s.), há uma esperança de que ele
seja restaurado e pautado nos valores do profetismo. Nesse contexto surge a promessa da
vinda de um “servo”, no fim do v.8: “Porque eis que farei vir o meu servo rebento”.  O
“servo”, ‘ebed, é cognominado de semah “rebento”, “broto”, “renovo”, “germe”. É um termo
messiânico (cf. Jr 23.5). O v.8 está relacionado com 6.12, onde lemos uma afirmação sobre
Zorababel. O v.9 menciona a “pedra”, e nela uma “inscrição”. Há uma grande discussão sobre
o significado da pedra. Seria um símbolo do Messias?
21
Seria pedra de arremate (4.7,9)? A
Bíblia de Jerusalém comenta: “Esta pedra única designa, sem dúvida, o templo. Os sete olhos
simbolizam a presença vigilante de Iahweh (4.10). A inscrição („consagrada a Iahweh) não foi
ainda gravada: a construção do Templo não foi concluída.”
22
Parece-me que a pedra simboliza
a  vigilância de Javé, por intermédio dos seus servos. Isso se explicitará na quinta visão
(compare 3.9 com 4.10, “sete olhos”).
                                               
17
SCHWANTES, Milton. Sofrimento e esperança no exílio: história e teologia do povo de Deus no século VI
a.C. São Paulo/São Leopoldo:  Paulinas/Sinodal, 1987, p.27-28 (Coleção Temas Bíblicos).
18
GOTTWALD, Norman Karl.  As tribos de Iahweh – Uma sociologia da religião de Israel liberto 1250-1050
a.C. São Paulo, Edições Paulinas, 1986, 932p. (Bíblia e Sociologia, 2).
19
CROATTO, José Severino. “A dívida na reforma social de Neemias – Um estudo de Neemias 5,1-19”. In:
Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana/Ribla. Petrópolis: Vozes, nº 5-6, 1990, p.25-34.
20
AUNEAU, Joseph. O sacerdócio na Bíblia. Tradução Maria Cecília M. Duprat. São Paulo: Paulus, 1994,
p.43-44 (Cadernos Bíblicos, 61).  
21
Veja GRONINGEN, Gerhard van. Revelação Messiânica no Antigo Testamento, p.831-832.
22
A Bíblia de Jerusalém, em nota de rodapé. 9
Fundamental nessa quarta visão são  o v.9b e o v.10. Alude-se  aí à remoção da
“iniquidade”. Na perspectiva de Zacarias, tempos de tranquilidade virão (v.10). Mas tal
tranquilidade não pode ser efetivada com os persas no controle. Portanto, à luz da primeira e
da segunda visões, parece-me que a remoção da “iniqüidade” é uma referência à queda do
imperialismo persa.
A quinta visão (4.1-14) mantém relação com a anterior. Pois a quarta visão terminou
com uma promessa à “terra” (3.9). A quinta visão também alude à “terra”, ou melhor, ao
“Senhor” da terra (4.10b, 14)! Ambas referem-se à reconstrução do templo (3.7, 9; cf.  4.8-
10). O verbo ‘md “estar de pé” foi decisivo na quarta visão. Da mesma forma a quinta visão
afirmará que Josué e Zorobabel “estão de pé diante do Senhor” (v.14). Mas, noutro aspecto, a
quarta visão é complementada pela quinta: aquela aludia a Josué; essa aludirá principalmente
a Zorobabel (v.6-10a). Portanto, o que há de inovador nessa quinta visão é a junção de dois
poderes: o sacerdotal e o real.
O centro da quinta visão são as duas oliveiras (4.3), que são identificadas com o
sacerdote Josué e com o governador Zorobabel (v.14). Ressalta-se que a pergunta do profeta,
no v.4, somente é respondida a partir do v.10b, após a palavra dirigida a Zorobabel (v.6-10a).
As duas oliveiras são identificadas com os “sete olhos de Javé, que percorrem toda a terra”.
Vejo aqui um contraponto à andança dos cavalos da primeira visão, os quais também andaram
por “toda terra”  (1.11). Aqueles simbolizavam o Império Persa. Aqui, na quinta visão, os
“olhos” simbolizam a presença de Javé, através dos seus “dois ungidos”.
O ponto culminante da quinta visão é  o v.14.  Lemos aí a superação definitiva do
império persa. O Senhor (’adon) de toda a terra não é o imperador persa, mas  é o Deus de
Judá! Na primeira visão quem percorria a terra eram os cavalos (1.7-11). Agora, não eles, mas
os “olhos de Javé” percorrem a terra (4.10b)! A presença de Javé suplanta  e substitui  a
presença persa! Ademais, parece que, à luz do v.12, essa presença de Javé seria mantida pelas
duas oliveiras. Através de Josué e Zorobabel, Deus está presente!
A sexta e a sétima visões (5.1-4 e 5.5-11) tratam de um mesmo assunto: a purificação
da terra (v.3, 6). Assim, elas mantêm a temática das visões anteriores (3.9; 4.14). Na sexta
visão o “rolo” parece ter certa relação com o livro de Ezequiel (Ez 2.10). Ele contém o
julgamento divino. O seu tamanho é igual a do pórtico do templo de Salomão (1Rs 6.3). O v.2
parece até comparar o “rolo” com o pórtico do templo. O v.3 explica o significado do rolo, e
também aponta para onde ele vai: “esta é a maldição que avança contra a superfície de toda a 10
terra”. Deste modo, o rolo é a maldição. Ele parece provir do templo, mas sai dele, e “avança”
contra “toda a terra”. A palavra  ’alâ, “maldição”,  é usada  no AT  em relação  à quebra da
aliança (Gn 24.41; Dt 28; 29.11). Sim, a aliança foi quebrada pelo “ladrão” e por “aquele que
jura falsamente”. Assim, a visão sinaliza a situação de injustiça da época de Zacarias: o roubo
(Ex 20.15) e o julgamento mentiroso (Ex 20.7).
A sexta visão afirma a destruição da “casa” daqueles que violam a aliança. A sétima
(5.5-11), por sua vez, aludi à construção de uma “casa”, local de habitação da iniquidade
(5.11). Mas há relação entre essas visões. A sexta referiu-se à expulsão daqueles que quebram
a aliança. A maldade seria extinta da terra. A sétima visão parece continuar essa temática,
pois anuncia a saída da maldade (a mulher na efa) da terra de Judá para a “terra de Senaar”
(v.11  – Babilônia). Portanto, à semelhança das visões anteriores, a sétima visão  continua a
aludir à “terra”. Em 5.8 lemos que a mulher no cesto simboliza a “iniquidade”. Mas na última
frase de 5.6 também lemos uma designação a ela: “isto
23
é o olho deles
24
em toda a terra.”  A
palavra hebraica  ‘enam “seus olhos” foi traduzida pelo grego como “sua iniquidade”,
propondo então o hebraico ‘azonam.
25
Mas a frase hebraica no Texto Massorético parece ser
uma referência à forte inspeção persa “sobre terra”. A meu ver, “seus olhos” é uma referência
aos inspetores persas, os sátrapas. Eles eram o “olho” do imperador persa!  Assim, essa sétima
visão alude ao livramento da terra de Judá dos olhos dos persas.
A oitava visão (6.1-8) alude a uma nova inspeção, diferente  daquela referida na
primeira visão (1.8-11). Os carros desta última visão vão resgatar aqueles que foram dispersos
pelo imperialismo. Na primeira visão, os três cavalos simbolizavam a manutenção do império
persa através dos sátrapas. Nessa última visão, a andança dos carros visa buscar a comunidade
que foi dispersa pelo imperialismo das nações poderosas. Em 6.7 lemos sobre o domínio do
Senhor Deus sobre a terra. O Império Persa é superado. Assim, a  andança dos carros nesta
última visão (6.7) contrapõe-se à andança dos cavalos da primeira visão (1.10). Portanto, essa
oitava visão não é paralela à primeira, como querem ver alguns comentaristas.
A reconstrução do templo é novamente tematizada em 6.9-15, após a última visão.
Muitos estudiosos interpretaram esses versos como uma evidência de que havia uma grande
tensão entre grupos reais (adeptos à monarquia judaíta) e sacerdotais no período Persa. Nesta
                                               
23
O hebraico zo’th (adjetivo feminino) e ‘ayin são singulares, respectivamente “esta” e “olho”.
24
Para uma melhor tradução em português,  a palavra “olho” deveria estar no plural, para concordar com o
pronome plural “deles”. Entretanto, mantive uma tradução literal do hebraico: ‘ayin (“olho”), no singular, com o
sufixo no plural, “deles”.
25
Bíblia Hebraica Stuttgartensia, Stuttgart, Deutsche Bibelgesellschalft, 1997, in loc. 11
perspectiva, o sacerdócio supera o davidismo real, sobretudo devido ao desaparecimento de
Zorobabel (descendente de Davi) da história judaíta no pós-exílio. Então, em Zc 6.11, onde
lemos uma alusão à coroação do sumo-sacerdote Josué, na verdade seria originalmente uma
alusão a Zorobabel.
26
No entanto, isso é questionável. Como demonstrou recentemente Mark
J. Boda, Zacarias dialoga com as grandes tradições da história de Judá, a tradição sacerdotal e
real; o texto zacariano dialoga também com a tradição profética.
27
Portanto, mesmo que  o
v.11 aluda a Josué, o v.12 não se refere mais a ele. Se a fala do v.11 foi dirigida a Josué, a fala
do v.12 começa com as palavras “Eis aqui um homem". Quando esta frase aparece na Bíblia
Hebraica, ela não se dirige ao que foi aludido anteriormente, mas a um terceiro que pode estar
se aproximando de longe (2Sm 18:26), ou que pode estar presente na cena (1 Sam 9:17), ou
ainda que pode estar ausente, mas acessível (1Sam 9.6).
28
Assim,  o  semah  (“renovo”
“rebento”, “broto”, “germe”) não pode ser Josué. O semah é alguém que está em cena (“Eis
aqui um homem”). Em 3.8 já lemos uma referência ao “renovo”. Joyce G. Baldwin afirma
que essas palavras de Zacarias aplicam-se Zorobabel, pois “seu nome significa „Renovo da
Babilônia”, e não há dúvida de que ele edificou o templo (4.9)”
29
.
Mas, a última frase de Zc 3.8 alude ao futuro! Assim, ainda que a concepção
messiânica tenha uma aplicação histórica à pessoa  de Zorobabel, ela ultrapassa o horizonte
histórico de Zacarias.    Concordando com isso,  Alonso Schökel  afirma: “Num horizonte
histórico, o Germe é Zorobabel (6.12). Num horizonte escatológico, o Germe será o Messias.
Assim o chefe histórico é reduzido a elo de uma corrente secular, e a profecia se projeta para
um futuro definitivo.”
30
Baldwin afirma que os ouvintes de Zacarias “estavam preparados
para as funções sacerdotais e reais do Renovo, vendo que Josué e Zorobabel contribuíam para
a vinda do Renovo, já que nenhum dos dois o representava completamente, sozinho.”
31
E, para que tudo isso acontecesse, o povo de Deus deveria fugir da “terra do norte”
(Babilônia, cf. 2.6; 6-1-15). Essa perspectiva da volta imediata da comunidade judaíta deve
ter um grande peso na afirmação de nossa pesquisa: as oito visões de Zacarias pronunciam
acontecimentos que teriam seus inícios na época do profeta. Nessa perspectiva está o
messianismo em Zacarias 1-6.
                                               
26
Veja a nota de rodapé da Bíblia de Jerusalém.
27
BODA, Mark J. “Oil, Crowns and Thrones: Prophet, Priest and King in Zechariah 1:7-6:15”. In: Journal of
Hebrew Scriptures. National Library of Canada, volume 3, article 10, 2001, p.1-36. www.purl.org/jhs, acessado
em 10.05.08.
28
BODA, Mark J. “Oil, Crowns and Thrones: Prophet, Priest and King in Zechariah 1:7-6:15”, p.16.
29
Veja BALDWIN, J. G. Ageu, Zacarias e Malaquias, p.109.
30
Bíblia do Peregrino, em nota de rodapé.
31
BALDWIN, J. G. Ageu, Zacarias e Malaquias, p.109-110. 12
Conclusão
As oito visões aludem à época pós-exílica. A partir daí, começaria uma nova era, que
claramente não se restringia somente à era do profeta. Lembremos: a igreja é a comunidade
do pós-exílio. Assim os profetas tinham razão em relacionar o advento do novo Davi com o
exílio babilônico (Jr 23.5-6, 7-8)! Dessa forma, Zacarias prevê um tempo que começaria em
sua época, mas que seria cumprido plenamente num outro momento. E, nas palavras de Jesus,
sabemos sobre esse cumprimento: “O tempo está cumprido” (Mc 1.15). De fato, a promessa
de  Zc 2.10, da morada de  Deus  com o seu povo, se cumpre em Cristo (Jo 1.14).  Nisso
concordo com Calvino:  “o livramento do exílio babilônico era uma espécie de prelúdio à
gloriosa redenção que foi trazida a nós e a nossos pais pelas mãos de Cristo”
32
Mas, a meu
ver, de acordo com as visões zacarianas, a  „redenção‟ é o livramento da opressão de um
império opressor. É justamente na perspectiva da queda do imperialismo persa que Zacarias
anuncia a vinda do Messias.
As implicações da mensagem de Zacarias se estendem à era da Igreja, a comunidade
do Messias pobre que viveu com os pobres. Sem dúvida, uma simples leitura nos Evangelhos
demonstra que Cristo se marginalizou com os marginalizados, questionou os ícones religiosos
e políticos de sua época, que contribuíam para a injustiça e à opressão. Esse questionamento
deve ecoar nos lábios na Igreja atual, também.

FONTE: http://www.revistaancora.com.br

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